segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Progresso (Günter Eich)


Esvaziado de memória,
eu era cinco bolas de vidro,
sem folhagem, sem perspectiva.
Ontem teria sido um bom
dia para morrer.
Hoje o último
fica para os cães.*

* Literalmente, "os cães mordem o último", expressão popular que se alude à situação da presa fugindo dos cães de caça. Algo como "o último se fode".





Hilmar Thate (foto) como o obscuro poeta Robert Krohn em O desespero de Veronika Voss, de R.W. Fassbinder. No filme, o poema de Eich é composto pelo personagem e logo jogado no lixo, num gesto colérico e quase hostil, depois que a namorada Henriette o lê sem permissão. Os sete versos são uma expressão precisa e "em baixo tom" do desespero silencioso de Robert, que conflui (e conflita) com a agonia histriônica da personagem-título.
Há horas em que o descontrole de Veronika — sua completa vulnerabilidade aos impulsos, seu avanço irrefreável (e irreversível) rumo ao precipício — me parece a condição mais infeliz dentre as que afligem os personagens do filme. Nessas horas, imagino que as cinco bolas de vidro do poema são completamente imóveis, autossuficientes em seu silêncio esférico e seu vazio desmemoriado, "sem folhagem, sem perspectiva" (imagem parente do "cão sem plumas" de João Cabral). Penso em cinco bolas de vidro como visão do perfeito repouso para Robert, poeta morituro que, diante da dissipação, sonha concentrar em matéria compacta e fria o calor que lhe resta.
Também há horas diferentes, em que a condição de Robert me parece mais triste que a de Veronika Voss. Não só pela consistência mais espessa e disforme da dor desse personagem, que o impede de manifestá-la (enquanto, em Veronika, a dor sempre encontra manifestação imediata), mas também porque seu sofrimento não é o declínio de uma felicidade real e intensa (embora efêmera), e sim o desconforto de um desejo que nunca alcançou realização ou intensidade, uma inquietude subcutânea que anseia clandestinamente por contato com o mundo, mesmo que isso conduza à autodestruição (e talvez porque conduz à autodestruição). Nessas outras horas, penso nas bolas de vidro do poema como bolinhas de gude em movimento, avançando desimpedidas ladeira abaixo ou rua afora, pura abnegação de si e velocidade desvairada.



Fortschritt

Entleert von Gedächtnis,

ich war fünf Glaskugeln,
ohne Laub, ohne Ausblick.

Gestern wäre ein guter

Tag zum Sterben gewesen.

Heute bei
ßen
den letzten die Hunde.

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