sábado, 28 de novembro de 2009

tempo cu em São Paulo


hoje em São Paulo faz um tempo cu
tinhoso em molhar a borda de baixo das calças
e de outras coisas, travesseiros,
derruba chaves num bueiro,
expulsa mendigos, fode passeios e festas,
acendendo lâmpadas em pleno dia,
entupindo narizes, enfiando os dedos
em quaisquer frestas, pra que fechem tudo.

queria outra opção, mas nada
exatamente me dói.
queria ser mais herói.
queria estar em casa.

sábado, 21 de novembro de 2009

convite


Hoje tem uma festinha
pra um convidado só.
O endereço é minha casa,
não tem que RSVP.

Celebramos a soltura
dos escravos de Jó.
A bebida é de graça,
a comida é você.

sábado, 14 de novembro de 2009

a casa 4

a casa 4 está comigo,
ela mora no meu olho
basta ficar escuro pra que fique claro
o recorte da entrada, a samambaia em torno;
a parede granulosa onde o número está fixo:
4
(como distinto dos outros
quatros na mesma cidade).

se vai mão adentro primeiro
e a chave só depois se gira;
o timbre é dos tapetes que, se volúveis ao pé,
capturam a luz
e vertem ela ao visitante.

o barulho que se escuta
(e que escuta a si mesmo, vigilante
das próprias batidas no teto
dos passos no andar de cima)
não se irrita, não se furta,
e sim rima, diz “passagem de carro”, “latido de cão”,
o silêncio de uma chuva,
da presença de um ladrão.

esse ladrão era eu
e eu também a visita —
a casa 4 se limita
com outras do quarteirão
só em geografia, não
em contiguidade de espírito.

em verdade aparenta uma ilha
a quem nela chega a nado,
uma boia no mar, uma caverna, um alagado
uma estação de petróleo
e sua vastidão implícita.

sábado, 7 de novembro de 2009

dois achilles no mesmo violão

na sala branca os instrumentos
passeiam de mão em mão
dois achilles compartilham
a mesma voz e violão
(um deles toca com as cordas
o outro com a imaginação).

este tem braços mais curtos
e cabe inteiro no colo
porém tem olhos maiores
e com menos óculos.

“África do Sul, pele e sangue azul”:
alguns dias esqueci
mas vou lembrar de outros alguns.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

amnésia

se esquecer todas as coisas
lembre apenas uma: atenção.

quem vai na frente? onde estão
os seus pés e os seus dedos?

desespero é ilusão —
um escuro é um começo.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

um sorvete pra ficar gostoso

no sol, o menino que passa
transborda o gosto do sorvete.
não tem, com a noção de passante,
completa similaridade —
passeia pelas portas da cidade,
pelo céu da mão espessa,
pelos fortes na barriga
cujo tufo escuro doa
para mim, sem que eu mereça.

eu que ontem, por descuido, não abri
à vista solar de meninos
mais que um gesto sujo de cigarro,
lance covarde de sorte,
fecho de improváveis futuros. Agora
esse vem de frente, vem de muro
desdobrar em mim, entre muitos
sua fartura de mistério
(uma parcela de rosto)
sua fluência na língua
que ele escande no sorvete
e eu também sinto o gosto.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

endereço

se eu achasse que é mentira
seria triste, mas tranquilo.
difícil é saber que existe
e hoje não está comigo.