
a casa 4 está comigo,
ela mora no meu olho
basta ficar escuro pra que fique claro
o recorte da entrada, a samambaia em torno;
a parede granulosa onde o número está fixo:
4
(como distinto dos outros
quatros na mesma cidade).
se vai mão adentro primeiro
e a chave só depois se gira;
o timbre é dos tapetes que, se volúveis ao pé,
capturam a luz
e vertem ela ao visitante.
o barulho que se escuta
(e que escuta a si mesmo, vigilante
das próprias batidas no teto
dos passos no andar de cima)
não se irrita, não se furta,
e sim rima, diz “passagem de carro”, “latido de cão”,
o silêncio de uma chuva,
da presença de um ladrão.
esse ladrão era eu
e eu também a visita —
a casa 4 se limita
com outras do quarteirão
só em geografia, não
em contiguidade de espírito.
em verdade aparenta uma ilha
a quem nela chega a nado,
uma boia no mar, uma caverna, um alagado
uma estação de petróleo
e sua vastidão implícita.